Rock, psicodelia e folk

Ultimamente tenho escutado artistas solo. Sei lá o motivo, mas são fases, acho. Não importa, o fato é que entre estes célebres compositores, nenhum se destaca mais por serem todos de nações musicais diferentes. Johnny Cash não está mais nesse plano mas deixou uma das mais belas obras do ano passado, American IV: the man  comes around. Louco, Syd Barret sempre me chamou atenção mas nunca tive contato com nenhuma música solo do ex-Pink Floyd até achar esse best of que agrupa (sem ser óbvio) algumas de suas melhores canções. E por último, o único álbum realmente novo, de Ryan Adams (é Ryan mesmo, não Bryan, pelamordedeus) o merecidamente elogiado Rock n Roll. Com um nome desses, não precisei pensar muito para decidir ouvir o disco.

 

Cash, Johnny Cash

Um vozeirão rouco e cansado começa a cantar seguindo o ritmo de um só violão folk que acaba emocionando o ouvinte mais desavisado. No caso, eu. Lembro de escutar Johnny Cash em épocas (dele) mais folk, a do vozeirão à la Elvis e a última vez, confesso, foi no disco do U2, Zooropa, onde canta Wonderer. Quando ouvi a voz imponente do sujeito, quis ouvir mais. Infelizmente, American IV chegou até mim depois que ele se juntou a Elvis. O disco: sensacional. Poderia parar aqui, seria enfático o suficiente para fazer você ouvir o disco – é isso aí: fazer você ouvir. Não sei se pelo final saudoso da obra ela tem um clima introspectivo, só sei que me faz pensar. Não, as músicas não são tristes e sim... carregadas de emoção, como a voz de Johhny Cash em cada uma delas. Quase todas as canções são somente em violões e todas tem participações especiais. Como é muita gente, não vou citar ninguém – mas valem a pena.

A primeira faixa, The man comes around, que dá nome ao disco, é uma pérola, uma prece ou qualquer outro nome que você possa achar pra ela. Esperançosa e pensativa. Give um love to Rose é triste, confesso, também bonita como quase todas as canções desse estilo no mundo. Sam Hall diverte, dá para ver os caubóis num saloon, as prostitutas em volta do piano e Johnny desafiando a todos com uma canção cheia de razão. Uma grade sacada do disco está na (des)construção de músicas que conhecemos e nunca imaginamos ouvi-las... bem, do jeito que ele fez. Personal Jesus, do Depeche Mode, ficou quase tão sombria quanto a original. Aqui ela só tem um tom mais sério. Bridge over trouble water, de Paul Simon, ficou bem parecida – seria um pecado mudar essa, assim como In my life, de John & Paul, com mais sentimento. Isso fica claro em várias canções, aliás. E por mais forte que isso pareça triste ou depressivo, eu desminto: é o típico disco bom (mesmo), que você aperta o play again com um aperto no peito. E sente-se bem.

 

Barret, Syd Barret

Só os mais aficcionados por Pink Floyd sabem quem ele é. Syd saiu cedo da banda, deixando como herança um primeiro disco sensacional. Enlouquecido pelo LSD, já não era o mesmo nas gravações e nas apresentações. Assim como abriu (mais) a sua mente para composições, a droga levou Syd a uma loucura da qual ele é vítima até hoje. Vive quase normalmente numa casa assistindo TV, cuidando do jardins e recebendo visitas quando está de bom humor. Teve uma carreira solo curtíssima, mas que rendeu dois álbuns heróicos e mais um de sobras e regravações. Wouldn’t you miss me? a coletânea, reúne as faixas mais representativas desses dois discos e algumas poucas sobras de estúdio. Para iniciantes, um ótimo disco para conhecer as loucuras sonoras de uma das mentes mais criativas e insanas que o rock já produziu.

Vale ressaltar que as músicas retiradas do primeiro disco solo, The Madcap Laughs, têm produção e participação dos dois amigos Roger Waters e David Gilmour. Na coletânea aparecem Terrapin, Octopus (viagem certeira que abre o CD de forma magistral), Dark Globe e Bob Dylan Song, essa última uma das sobras. Esse álbum é datado de 2001, mas eu nunca tinha escutado falar nele. A opção por coletâneas nem sempre é a melhor, ainda mais de um artista que tem somente dois discos. Só que moramos no Brasil, onde é muito, mas muito difícil encontrar vários discos simplesmente por não serem de uma grande gravadora ou “não muito conhecido”. Fica a dica. E prepare-se para uma viagem lisérgica musical...

 

Adams, Ryan Adams

Não saberia dizer se gostei da capa do álbum de Ryan Adams, aquele que ele está na frente de uma bandeira americana. Acho patriotismo uma coisa muito legal. O que não dá para aturar é a suposta supremacia americana que alguns artistas acham que tem. Isso fez com que eu tivesse uma impressão tal do cara e fiquei afastado da música dele um bom tempo por causa disso. Mas não deu pra escapar desse Rock n Roll. Por causa do nome, óbvio. Se há uma coisa que quebra fronteiras é o rock: pode ser americano, brasileiro, mexicano, irlandês ou russo (ta, forcei essa), é sempre curioso ouvir. Se for pra criticar, melhor ainda. Não que seja o caso desse álbum. Como já confessei que não conheço muito da música do sujeito, não tenho como comparar com outros trabalhos dele. Lembrei, sim, de um John Cougar (ou Mellancamp, tanto faz) mais pesado, uma voz à la Bono Vox e uma harmonia do começo ao fim como o título promete: rock, desde o peso até a balada.

A abertura com This is it parece mesmo ser uma resposta a Is this it dos Strokes.  É uma música furiosa mais no estilo do que no som. So Alive tem raízes nos anos 80, daquelas bandas estilo Meat Loaf. É sério! Isso não denigre o disco de maneira nenhuma. Wish you were here (não, não é regravação do Pink Floyd) é uma balada bem feita, mistura palhetadas suaves com o trio baixo-voz-bateria. A ótima Rock n Roll, de rock, não tem nada, fora a letra: Everybody’s cool playing rock n roll/I don’t fell cool at all. Uma canção curta ao piano, recitada como um poema. Dispersa do resto do disco. Apesar das supostas críticas, Boys (não, também não é regravação dos Beatles) lembra qualquer música dos Strokes. Só não tem a voz de Casablanca. Ótimo, pois os vocais de Ryan superam os do stroke muitas vezes.

Mas o disco não supera outros vários de rock que eu e você já ouvimos. Sei que a intenção nem era essa, só estou avisando para não ouvir esse como se fosse a salvação do rótulo rock. É uma forte lembrança de que o bom e velho rock n roll vive, ainda, em vários estilos e lugares. Ryan Adams parece ter misturado vários desses lugares nesse disco. Deu certo. Pelo menos até alguém ter outra idéia genial.

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