A volta dos que não foram

O Rappa - O Silêncio que Precede o Esporro

Inclusive eu. Voltei sem ter ido. Depois de três meses captando lançamentos, revendo discos, esperando algo que valesse a pena (sem que outros já tivessem dissecado numa massa midiática redudantemente exagerada) comentar, discutir, mostrar. Nesse meio tempo ouvi Kings of Leon, o novo do Strokes, vi o filme do Casseta & Planeta e não me espantei com a prisão do Saddam. O que me chamou atenção?! Lá vai...

Voltam e ficam

Quando pensei em perguntar para alguém “e O Rappa, hein?!”, vi o CD na Internet. Aguardadíssimo, o novo disco é aquela coisa: o que será do Rappa sem Marcelo Yuka?! Apesar de nenhum deles comentar o assunto, percebe-se a falta do principal letrista da banda. Mas não faz falta. O apelo social e político ainda está lá, está tudo ali, só que de um modo diferente. Ainda são o Rappa, os caras que tem uma das melhores mentes musicais do país. E inovaram. Conceitual, experimental, os caras mexeram em tudo. O Silêncio que Precede o Esporro é para ser ouvido inteiro, na ordem das faixas que se dispões entre poemas, Wally Salomão e sons com jeito de introdução para a próxima faixa. As faixas sem título são as que intercalam e complementam as músicas e as poesias – o saudoso Wally fala em duas, para deleite dos mais atentos.

Nas músicas, o hit Reza Vela é o carro chefe com segurança, na fusão dos vocais rápidos de Falcão com a oração (com o perdão do trocadilho) da letra bem escrita. Rodo Cotidiano já segue um caminho mais calmo e menos raivoso, com a banda utilizando uma reflexão sonora que acaba se transformando num pop bem feito. Papo de Surdo e Mudo começa com uma das melhores sacadas literárias em música: o nascimento de uma alma é coisa demorada / não é partido ou jazz em que se improvise / não é casa moldada laje que suba fácil / natureza da gente não tem disse me disse. Some isso a uma levada com batidas quebradas, vocais surround, baixo dominante e guitarras à la A Feira e você tem uma das melhores músicas do disco. Bitterruso Champagne é a mais experimental: ruídos que parecem distorcer além da conta, overloads e até uma remixada de vocais que não estamos acostumados no som da banda. Mas funciona, e muito bem.

O disco é bom o suficiente para eu tomar um pouco mais de espaço e falar mais: Mar de Gente é aquela música mais acústica, remetendo aos primórdios da banda, um quase reggae com sons intrusos e bem-vindos. Linha vermelha é para ouvir na beira da praia, mas como se estivesse ouvindo Dorival Caimmy: quase só em violões, é a parte light do álbum. E falemos das participações: Óbvio disputa como melhor canção com a participação de Malena D’Alessio num bom rap onde o baixo e os scratches mostram quem manda ali. E a “parada maneira” do disco fica por conta de Maneiras, com Zeca Pagodinho, numa cover de um ótimo partido alto. Pra finalizar, outra ótima coverizada, Deus lhe Pague, ao estilo de outra clássica, Vapor Barato.

É um novo começo para a banda carioca. Depois de um bom tempo sob a pressão invisível dos fãs, lançam um CD à altura de uma grande banda nacional que são – e “grande” aqui usada no sentido de “boa”, não de “vende-se bem”, por favor...

Eyes quem?!

Eu já elogiei a Sum Records por aqui, não?! Bom, vou tecer mais elogios hoje. A gravadora está trazendo coisas que outras nem sonhavam em distribuir por aqui. Depois de Paul Westerberg, Solomon Burke e vários outros, agora chegou nas minhas mãos o Eyes Adrift. Mas quem diabos são esses caras? Bom, você já ouviu falar muito provavelmente de Sublime, Nirvana e Meet Puppets, não?! Bom, junte três caras de cada uma dessas bandas (duas que não existem mais e a terceira, o Puppets, ainda não sabe) e monte outra: Eyes Adrift. Bud Gaugh (ex-Sublime) na bateria, Krist Novoselic (ex-Nirvana) no baixo e vocais e Curt Kirkwood (Meat Puppets) nas guitarras e vocais. Com influências decorrentes de suas origens, a salada que é o Eyes se mantém saborosa ao longo do disco. Músicas fáceis, algumas com jeito country-rock (Puppets), outras levadas em violões e baquetas pesadas (Sublime) e outras que lembram o peso do Nirvana, como Solid, um ótimo exemplo cantada por Kirkwood. Aliás, ele é o responsável pela maioria dos vocais - nove entre doze músicas do disco. O que é ótimo, pois canta bem melhor que Novoselic, que é bom mas nem tanto. Talvez por isso o disco soe mais Puppets do que as outras duas.

Mas é tudo novo demais para comparar. Façamos assim: é uma banda nova, certo?! Sleight of Hand, que abre a bolachinha digital, é um folk com lembranças no rock. Essa primeira faixa tem direito à um trompete, único instrumento extra utilizado em todos o disco. Alaska, a que segue, rompe com guitarras e versos arrastados para explodir num refrão rápido e pegajoso: impossível não ficar cantando. Inquiring Minds também é assim, essa com Novoselic nos vocais. Blind Me é aquele folk que todo roqueiro gostaria de ouvir. Balada boa com um solinho de guitarra bem afinado. A música mais “banjo” de todo o disco Dottie Dawn & Julie Jewel. Podia ser trilha do De Volta para o Futuro III, aquele que se passa no velho oeste. Eu disse que não ia comparar, mas não tem como: a influência de Kirkwood nessa é fundamental. Quem conhece Meat Puppets vai reconhecer na hora. Para terminar, uma bela (e longa) canção para fechar o disco, Pasted, com cada um tocando vários instrumentos em diversas velocidades, diversos arranjos... mais parece várias músicas numa só. Excelente! Essa e todo o disco. Não se sabe se vão continuar com a banda, mas só esse disco já vale pelos outros que não sei se virão (ta, a frase é confusa mas é isso aí mesmo). Para quem quiser, tem duas faixas disponibilizadas no site www.eyesadrift.com que não estão no disco. Aproveite e vá lá agora. Não, espere: leia o resto da coluna antes! Se quiser, claro...

Os Beatles, nus

A nova versão de Let It Be, dos Beatles, já não é novidade. Mas vale, claro o comentário. Primeiro, por ser um disco clássico dos fab four, e só isso já bastaria qualquer linha de texto. Modificado (ou desmodificado, como sugere o título) da sua versão primeira, Naked traz o retrato fiel do que foram as gravações do mais controvertido álbum da carreira deles. E com todas os ângulos possíveis, já que junto vem um CD só com recortes das gravações – comentários, pequenas jams... uma pequena pérola.

Para começar, Let It Be não é o último álbum dos Beatles. Foi lançado como último, mas foi gravado antes de Abbey Road, este sim o verdadeiro canto do cisne. O que aconteceu é que na época (a história é mais ou menos assim) os quatros garotos não gostaram do resultado do álbum e arquivaram a coisa toda. Depois, John confiou a seu amigo Phil Spector (maluco de carteirinha) que produzisse o álbum como lhe conviesse. Bom, Phil colocou cordas, orquestras, aumentou as vozes, fez o escambau. Resultou no disco menos parecido com os Beatles, e daí essa visão de álbum derradeiro. Agora, para ganhar um pouco mais de grana, opa, quer dizer, presentear os fãs, os três remanescentes (sim, George concordou com tudo) decidiram lança-lo como ele realmente foi gravado. Agora sim, é um álbum mais parecido com os Beatles que todos estavam acostumados: sem firulas, mas com alguns experimentalismos que a banda utilizava.

Alguns vão estranhar a falta de duas faixas (Dig It e Maggie Me) do álbum original, mas faz parte do “álbum como ele deveria ter sido”. Em compensação, ganhou espaço Don’t Let Me Down e também todas as músicas trocaram de posição em relação ao original. Enquanto Let It Be, a música, ficava no meio do disco, ela ocupa o fechamento do novo. E Get Back, aquela que Paul cantava olhando para Yoko, de última, abre a versão nua do (agora sim) canto do cisne dos Beatles. Isso até eles acharem mais fitas em latas de lixo, gravações na casa de uma namorada que John teve aos 13 anos. E por aí vai. Mas vale o registro. Encare como um novo álbum e seja feliz, let it be...

Então tá

Para esse ano, era isso. Desejo aos leitores um ótimo Natal e um grande ano novo para todos, com muita, mas muita música boa rodando nos seus compartimentos auriculares. Sobreviva às “marchinhas” das festas de final de ano e siga em frente. O importante é não desistir! Abração a todos e até janeiro.