Por Eduardo Tadeu Ferrari Salvalaio

Artista: Booka Shade
Disco: The Sun & The Neon Light
Ano: 2008
Gravadora: Get Physical Music
Para quem acompanha a arte musical, sabe que todo ano há uma particularidade em torno dela. Em 2008, por exemplo, parece que estamos vivendo o renascimento das duplas (assim como foram os áureos tempos de um Simon & Garfunkel, rapidamente mencionando um duo da história musical) de tantas que já apareceram no cenário. Da sempre prolífica cidade de NY, temos MGMT, The Dodos e The Ivy League. Das terras geladas da Suécia, temos Valutan e Studio. E ainda tem os casais do The Weepies e do The Submarines.
Agora, nos chegam dois músicos alemães (de Frankfurt). Walter Merziger e Arno Kammermeier. Na bagagem trazem três discos, sendo um de remixes (incluindo nomes de peso como Moby e The Knife). Os outros dois são ‘Memento’ (2005) e ‘Movements’ (2006). Porém, a história dos dois é mais extensa e complicada de se contar aqui. Já participaram de eventos com outros dj’s reunidos. Antes de 2000, tinham um outro nome: Planet Claire. Com uma sonoridade mais synth-pop. Em 2002 assumiram a dupla com o nome de Booka Shade fazendo um som mais complexo e de não tão fácil assimilação.
Volto a frisar que sempre é difícil de falar sobre alguma obra musical em torno do eletrônico. Um estilo que foi – infelizmente - estereotipado como ‘dançante’ ou ‘próprio de casas noturnas’. Além do mais, é um estilo que compreende facilmente o que de tudo foi feito até hoje. Um mosaico em que cada fragmento remete à uma época. Do Kraut-rock 70 até a época atual com expoentes de peso tais como Gui Boratto e The Field.
E é certo. O som do Booka Shade não é fácil de identificar em qual parâmetro fica. Para começo de análise, os discos tem lá seus 63 minutos (na verdade, são dois discos). E Esse tempo com um pouco mais de uma hora de duração precisa ser degustado ao prazo de duas semanas, três, mais que um mês, aliás. Para sempre encontrar uma passagem despercebida, uma voz a mais (os louvores da música que abre um leque de possibilidades sonoras). Hoje em dia discos imensos precisam mais do que tudo, de sua paciência e sensibilidade para sentir a obra em sua totalidade.
‘Outskirts’ é o cartão de visitas para o álbum. Bela e onírica. Uma fusão tranqüila entre o techno de Detroit meados dos 80 (pense num Kevin Saunderson) com um Orbital (um dos ícones da cena eletrônica nos anos 90). A climática e grudenta ‘Dusty Boots’ tem samplers de sopros e pode ser a mais assimilável do disco, junto com ‘Charlotte’ que até apresenta semelhanças com os acordes da melodia marcante de ‘Blue Monday’ do New Order. Exagero meu? Ouça e tire suas conclusões. E se você foi um fã incondicional do techno-pop feito por Depeche Mode, Soft Cell e OMD, sinta-se em casa ouvindo ‘Control Me’ e ‘Psychameleon’. As vozes sussurradas e incompreensíveis dão um charme à mais nas soturnas ‘Solo City’ e ‘Sweet Lies’.
O inusitado ainda se faz presente. Art Of Noise e Kraftwerk podem se juntar? Sim, a experimental ‘Karma Car’ ratifica tal sentença. O homem brincando com a máquina sem deixar a música imbecil. ‘Planetary’ apronta com os sintetizadores fazendo efeitos mil e parecendo trilha insana e acelerada de filme de ficção científica. ‘Comacabana’ tem samplers de linhas de baixo, batida tribal e barulhos metálicos por todos os lados. Sinistra, embora bem marcante.
Seguindo a tradição alemã de ser berço de bons músicos/grupos (Mozart, Neu!, Can, Faust, Kraftwerk, Einstürzende Neubauten, The Notwist), o Booka Shade não foge à regra. Com todo esse retrospecto de aprendizado, o duo prova que vai rascunhando a lição para vir com algo ainda mais soberbo no próximo disco. ‘The Sun & The Neon Light’ já foi um bom teste para esses discípulos teutônicos.
Nota: 7,6
Gravadora: Get Physical Music
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