Tudo se transforma

The Beatles

Tenho o costume de quando estou no trabalho ou no carro, escolher uma determinada rádio e deixar ela tocando o dia todo. Tudo bem, sou um cara paciente e gosto de ouvir as rádios para pescar um ou outro som novo interessante ou redescobrir algum outro que ficou para trás. As vezes até descobrir e redescobrir uma musica ao mesmo tempo. Vou explicar melhor.

Outro dia desses, estava ouvindo uma rádio com um som um pouco mais diversificado aqui de São Paulo e não pude deixar de perceber o incontável número de vezes que essa música nova do Limp Bizkit tocou. Você já deve ter ouvido. Esse single está vendendo horrores lá fora, e já faz algumas semanas que está na parada da Billboard. "Behind Blue Eyes" é o nome do danado. Só fico me perguntando se os caras dessa banda sabem o que realmente esse som significa.

Ele foi composto lá por volta de 1970/71 por uma das bandas mais importantes que já passou por esse planeta, o The Who. Nessa época o Who, estava saindo da aclamada ópera-rock Tommy, e de um dos maiores álbuns ao vivo lançados na história do rock n' roll, o Live At Leeds. Roger Daltrey, Pete Townshend, Keith Moon e John Entwistle estavam num dos seus melhores momentos, atingindo uma maturidade musical pouco vista no estilo. A versão desse som, originalmente lançada no disco Who's Next de 71, é de arrepiar, com Daltrey cantando em cima de uma base acústica, até aquela explosão de raiva e angustia demonstrada na letra ser transposta para os instrumentos. Já na versão de Fred Durst e Co., o que seria a explosão do Who, no clímax da canção se ouve uma daquelas frias e medíocres bases eletrônicas. Ouvindo o Limp Bizkit, você percebe o quanto o Who era bom, e o quanto o Bizkit vai ter que ralar pra chegar lá.

Melhor sorte teve o No Doubt com sua versão para o "It's My Life" da banda Talk Talk. A música é originalmente de 84 e fez muito sucesso na época, até mais do que ela tem feito hoje. O pessoal da Gwen Stefani não quis se comprometer e fez uma versão onde manteve o mesmo clima da original, só dando aquela modernizada básica, típica de quem não quer se arriscar. Mas acho que deu certo.

Motivado por esses sons, e pela enorme quantidade de discos que grandes astros do rock tem feito ultimamente homenageando seus artistas preferidos (caso do Sepultura com o seu Revolusongs, lançado no ano passado, e dos recentes Honkin' on Bobo do Aerosmith e de Me and Mr. Johnson de Eric Clapton), resolvi fazer uma lista com os covers que considero os mais bacanas que já ouvi. Não se trata de uma lista das maiores versões já executadas na história da música, e sim de uma seleção pessoal de musicas que tenho um certo apreço. Sons que considero legais mesmo, e que tiveram uma certa influência em minha vida. Qualquer coisa diferente disso seria muita pretensão de minha parte. Achei esse tema e a forma de escreve-lo interessantes para a estréia de uma coluna.... Então, por ordem cronológica, ai vão eles com as suas devidas explicações.

The Beatles - "Twist and Shout".
A faixa que encerra o primeiro album dos Beatles, Please Please Me de 63, na verdade não era deles, mas sim de autoria da dupla Medley e Russell. Arrisco dizer que a primeira vez que essa canção foi lançada, foi em 62 no disco "Twist and Shout" dos Isley Brothers. A versão dos Beatles é aceleradissíma, com John Lennon berrando com um louco. Classe A! Ouça também: Beatles fazendo um dos clássicos da gravadora Motown: Please Mr. Postman.

Byrds - "Mr. Tambourine Man".
Os Byrds sempre adoraram fazer versões um pouco mais agitadas para as canções de Bob Dylan. "Mr. Tambourine Man" é a faixa titulo do disco lançado em 65 e que marca a estréia dos caras (disco que contém mais quatro músicas do ídolo), e está em Bringing It All Back Home, disco de Dylan lançado no mesmo ano, só que alguns meses antes. Ouça também: All Along the Watchtower, tanto na versão de Jimmy Hendrix quanto na do U2.

Joe Cocker - "Little Help From My Friends".
Nunca uma música dos Beatles foi tão bem tratada. Lançado pela primeira vez em Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band de 67, esse som foi remontado por Joe Cocker para ser a faixa título de With a Little Help from My Friends em 69. O vozeirão, o arranjo diferente, a guitarra nervosa.... Uma das maiores versões da história. Ouça também: a voz de Huey Lewis na "Feelin' Alright" de Joe Cocker.

Creedence Clearwater Revival - "I Heard It Through the Grapevine".
Acho que esse som foi lançado por uns dois artistas diferentes durante o ano de 67, mas foi em 68 que ele recebeu a sua versão mais clássica. Se trata da faixa título do disco lançado por Marvin Gaye pela gravadora Motown. E três anos depois, o pessoal do Creedence transformou os 3 minutos e 14 segundos do música original em pouco mais de 11 minutos de puro rock n'roll. A faixa saiu em Cosmo's Factory (1970). Ouça também: Ramones accelerando a "Have You Ever Seen the Rain?" do Creedence.

Van Halen - "You Really Got Me".
Saltando do primeiro disco dos Kinks (Kinks de 64) para o primeiro do Van Halen (Van Halen de 78). Os Kinks tinham tudo pra decolar junto com os Beatles e os Stones, mas não foi bem assim que aconteceu. Mesmo assim, eles deixaram grandes sons para a história. Esse foi um deles. 14 anos depois, Eddie Van Halen e sua trupe, empolgadíssimos com seu primeiro disco, mandam essa tremenda música de maneira fantástica. Ouça também: "Oh, Pretty Woman" de Roy Orbison na versão do Van Halen.

Echo & The Bunnymen - "People Are Strange".
Isso que eu chamo de cover. Em 1987, o Echo participou da trilha sonora do filme The Lost Boys (Garotos Perdidos) com essa versão do som dos Doors presente no álbum Strange Days de 67. A mesma levada, a mesma postura, mas com algumas firulas por aqui, outras por ali... O solo de piano ficou magnífico. Ouça também: "L.A. Woman" - Som dos Doors na voz de Billy Idol.

Red Hot Chili Peppers - "Higher Ground".
Versão feita para o álbum Mother's Milk de 1989. Aqui os Peppers impõe um velocidade nunca antes imaginada para mais esse soul. Tudo bem, a versão de Stevie Wonder no seu Innervisions de 73 já era quase um rock, mas essa versão dos Peppers é coisa de maluco. Os som é tão bom que já foi relançado várias vezes, inclusive nas duas coletâneas oficiais da banda. Ouça também: Do mesmo álbum, a versão do Red Hot para "Fire" de Jimmy Hendrix.

Faith no More - "Easy".
Faixa composta por Lionel Richie e lançada pelo seu grupo The Commodores em seu álbum homônimo de 77. Em 1993, o Faith No More não se arriscou muito na sua versão desse som, mas conseguiu um certo destaque no cenário musical. O solo de guitarra ficou fortíssimo e marcante. O cover foi lançado mundo afora como um single, mas como o sucesso aqui no Brasil foi estrondoso, além do single nós ainda tivemos uma reedição do disco Angel Dust (92) que continha esse sonzinho como uma faixa bônus. Ouça também: Um pouquinho mais ousada, mas nem tanto, a versão de "War Pigs" do Black Sabbath, gravada pelo pessoal do Faith No More.

Nirvana - "The Man Who Sold The World".
Do álbum MTV Unplugged in New York de 1994, saiu essa bela versão do Nirvana para "The Man Who Sold The World", faixa título do disco lançado por David Bowie em 1970. Mais um prova de que o Nirvana tinha classe. O disco inteiro é ótimo. Ouça também: A versão reduzida que o Wallflowers fez para "Heroes", de Bowie.

Stone Temple Pilots - "Dancing Days".
Violinha, bongozinho...versãozinha quase acústica, bem simplificada que os Pilots fizeram de forma excelente para o Encomium - A Tribute to Led Zeppelin de 1995. Versão mais simples, mas quase tão empolgante quanto a original encontrada em Houses of the Holy de 1973. Ouça também: A versão de "Kashmir" que Jimmy Page e Robert Plant regravaram para o disco No Quarter de 1994.

Rolling Stones - "Like a Rolling Stone".
Épico de Bob Dylan que abria o álbum Highway 61 Revisited, lançado em 1965, recebeu uma versão honrosa dos Stones no seu Stripped de 95. Essa música levou inclusive os Stones a excursionarem com Dylan por algumas cidades do mundo, passando inclusive pelo Brasil. Ouça também: Qualquer cover que o Guns n' Roses fez na vida, incluindo "Knockin' on Heaven's Door" de Dylan e "Sympathy for the Devil" dos Stones.

Metallica - "Whiskey In The Jar".
Essa é da época em que o Metallica ainda fazia grandes discos e não desmarcava shows por aí. Garage Inc. de 98, disco duplo só com a banda fazendo covers, traz entre outras grandes canções, essa bela versão para um dos sons mais interessantes de uma das bandas mais legais da história, o Thin Lizzy. Versão original de 73, no álbum Vagabonds of the Western World. Curiosidade: "Whiskey In The Jar" na verdade é uma canção folclórica irlandesa. Ouça também: Do mesmo álbum, "Die, Die My Darling", cuja original é do Misfits e a versão da já pesada "Stone Cold Crazy" do Queen.

Por André Melo [http://lemonsoup.blogspot.com]