Deftones

Palladium, Worcester-MA
17 de novembro, 2003

Não há dia pior na semana do que segunda-feira, o dia de voltar para a rotina, o "dia do mal humor", certo? Errado!! Pelo menos para mim, segunda-feira de folga especialmente para ver meu segundo show do Deftones. Caso alguém esteja achando um pouco estranho realizar um show em data tão "inconveniente", nos USA não existe a preocupação em agendar shows em fim de semana, eu mesmo não lembro de ter ido em algum, as duas exceções são justamente de duas bandas brasileiras que se apresentaram por aqui.

Outra diferença dos padrões brasileiros é o horário das apresentações, geralmente começo da noite. Se no ingresso diz "portas abrem 18:30, show começa 19:30", pode apostar sem medo na pontualidade. Pior para mim, brasileiro, por mais que tenha tentado cheguei mais uma vez alguns inexplicáveis minutos atrasados, ainda que considerando uma hora inteira de estrada desde Boston.

Chegando no local a fila pra entrar diz tudo, quem veio para comprar ingresso na hora ficou de fora: ingressos esgotados. Cambistas? Em shows de grande porte, festivais, você os encontra, o que não era o caso. De tão impaciente que estava furei a fila sem perceber(de verdade), só depois de ter esperado meus amigos no saguão do teatro eles me informaram que não eram eles que estavam lentos, eu que havia furado a fila, se alguém me olhou de cara feia nem percebi. Lá dentro a primeira banda já estava tocando...

Denali

Nunca havia ouvido falar da banda antes, na real estava lá pra ver o Deftones, o que mais viesse era lucro. A banda nasceu há apenas três anos em Richmond, Virginia, foi formada pelos dois irmãos Maura Davis (vocal e guitarra) e Keeley Davis (baixo, sintetizador e sampler), logo em seguida Cam Dinunzio e Jonathan Fuller foram chamados pra ocupar os postos de guitarra e bateria, respectivamente. Estão em turnê de lançamento do segundo disco intitulado "The instinct", o trabalho anterior tem mesmo nome que a banda e data de 2002.

Em seu site oficial http://www.denalimusic.com a banda explica que o nome "Denali" é a denominação indígena para a mais alta montanha da América do Norte, no Alaska, nome esse que descreve o som que fazem "frio, remoto e desolado, permanente...". Melhor descrição não pode haver, foi um "choque têrmico" o que senti ao colocar meus olhos no palco. De là vinha música etêrea saída de um vocal feminino angelical, teclado muito bem utilizado, guitarra e bateria apenas esperando. Depois descobri que a música em questão era Relief: "walk on/move or I may implode/this is not called relief", de repente guitarra e bateria acordam e completam o clima apoteótico, desespero latente. Pra ajudar, iluminação bem utilizada, palco totalmente escuro maior parte do tempo, algumas vezes com uma luz branda (branca, azul ou violeta) apenas sobre a vocalista. Tecnicamente a banda é precisa e muito bem introsada. O único problema talvez seria estar soando um pouco deslocada em relação as bandas a seguir, algumas pessoas acharam o curto show de 15 ou 20 minutos chato. Já quem estava lá pra ouvir boa música, e não só abrir uma roda de pogo, deve ter ficado feliz com o belo show.

Poison the Well

Já havia ouvido Poison the Well antes, mas nada que tivesse guardado na lembrança. A culpa provavelmente não foi deles, mas do mar de informação a que você é exposto aqui. O quinteto surgiu na Flórida há 5 anos atrás. Estão em turnê de lançamento do terceiro trabalho "You come before you", o primeiro por uma grande gravadora. Não é surpresa que os fans mais radicais da mistura hardcore/metal inicial não tenham gostado do resultado mais "comercial" desse último álbum. Tentando rotular, ele se aproxima mais da cena "emo-core"(não confundir com punk-rock melódico da escola Pennywise/Bad Religion que traz CMP22 como representande no Brasil), mas não se contentando com os limites, o som vai além. Momentos de muito peso com pitadas melódicas, no site da banda pode ser ouvido o CD inteiro: http://buzztone.atlanticrecords.com/poisonthewell

O show começou com a montanha de riffs de guitarras distorcidas, quebrando o clima ainda melancólico da apresentação anterior. Música após música, as duas guitarras violentavam os nossos ouvidos, emoldurando o vocal gultural do vocalista Jeff Moreira. Ao vivo a violência das músicas é maior e as passagens melódicas são praticamente imperceptíveis. Um amigo olhou sem graça e disse sorrindo "eu não gosto disso não". Definitivamente não é um show pra quem tem os gêneros reggae e hip hop como preferidos (ele foi contra vontade). Eu, por minha vez, estava pensando exatamente em comprar o CD.

Deftones

Eis então que surge o momento do Deftones entrar no palco. O show da banda de Sacramento, California, se mostra bem melhor em locais mais intimistas. Com quatro álbuns excelentes na bagagem, fica difícil tentar adivinhar quais as músicas escolhidas pro "set list", mesmo ainda divulgando o último trabalho (obviamente quase todo executado). A música escolhida pra iniciar é "My Own Summer (shove it)", não dá pra não se emocionar ao ouvir os primeiros versos: "Hey you, big star, tell me when it's over...Shove it, shove it, shove it!!". O que se segue é um espetáculo inesquecível, canção após canção, Chino Moreno e companhia dilaceravam notas sem piedade, mesclando fúria travestida em desespero com lirismo, desfilando pérolas do quilate de "Knife Prty", "Digital Bath", "Minerva","Change (in the house of flies)" e uma de minhas preferidas, "Be quiet and drive (far away)". Essa última já ganhou uma bela versão do Radiohead. Passou por minha cabeça, vendo aquele mar de braços levantados do público tentando tocar em Chino, que por segundos poderia estar no purgatário e quem conseguisse tal feito seria salvo, tamanho o desespero presente. No fim algumas pessoas gritam pedindo por "7 words", mas não é executada no bis. Junto com "Passenger", são as únicas lacunas do show quase perfeito. Uma coisa é certa, quem não gosta de Deftones pode acusá-los de qualquer coisa, menos de ser clichê. Não há banda igual.