O NOVO QUE SE APROVEITA (MUITO BEM) DO VELHO

The Twilight Sad

(Traumas de infância e problemas em família são temas dos escoceses do The Twilight Sad, que por sua vez, tem um pé fincado no estilo shoegazer)

Neste ano, em várias resenhas que escrevi, fui reparando como as influências de grupos antigos são cada vez mais transparentes na nova geração de bandas e em suas composições musicais. Ao escrever, tento sempre que possível não tecer comparações com discos anteriores ou até mesmo com clássicos que infiltraram a produção atual. Todavia, na fase atual, tal tarefa está complicada. Um exemplo: não tem como falar do Interpol sem um resquício de citação sequer ao Joy Division. Tudo bem que em seu terceiro disco, os nova-iorquinos tentam buscar sua identidade e fugir da penumbra que Ian Curtis deixou para o mundo.

Tentarei fazer uma rápida exposição do que ouvi e o que tive a oportunidade de apreender. Os suecos (que ultimamente rendem atenção ao mundo da música) chuparam de forma perfeita grupos que encantavam ouvintes nos anos 80. The Mary Onettes é um dos que mais assumem essa postura. As aberturas de suas canções sempre fazem uma referência à sonoridade oitentista. Hum, parece que já ouvi isso em algum vinil meu ou de meu irmão/pai. The Cure? Vai entrar a voz de Robert Smith? Guitarras de alguma música do Jesus And Mary Chain? Ian MacCulloch e seus poucos homens coelhos que restaram com algo novo? Mas, os músicos contagiam tanto que não vou reclamar. Os também suecos do Hearts Of Black Science abusam tanto dos sintetizadores marcantes dos 80 que pensamos que estamos sendo transportados 20 anos atrás e escutando algo inédito de algum ícone do techno-pop ou ainda algo do The Human League ou do Depeche Mode. Para o lado mais eletrônico, damos de cara com o duo eletrônico Studio, que até nos faz parecer ser alguma banda esquecida do grandioso catálogo da Factory (do finado Tony Wilson). Um pouco de New Order, de Happy Mondays e de Durutti Column. A mistura é perfeita, não? O som dos caras é um dos melhores de 2007 sem tirar o pé em vinte anos passados, sem ter vergonha de se espelhar na boa escola musical.

Para o lado melancólico então, nem se fala. Dariam mais dois textos tranqüilamente. Iliketrains, promessa vinda de Leeds (já comentada aqui pelo Luciano Ferreira), adiciona paredes sobrecarregadas de guitarras, tudo em clima de acidez e amargura em letras esparramadas por um vocalista à la Stuart Staples. Então, diga-se de passagem, nada mais que um Tindersticks com mais fúria e vigor. Olha a ironia: por sua vez, Tindersticks se apropria de excelentes referências como Leonard Cohen, Scott Walker e Nick Drake. Os escoceses do The Twilight Sad constroem suas letras que remetem a pesadelos sobre bases de guitarras que lembram bandas do estilo shoegazer e que fizeram nossa alegria. Aquela turma que cantava olhando para seus próprios pés estão sim bem representados. E tem o Maps que me lembrou muito um Chapterhouse, principalmente.

Vocês pensam que aquela coisa de misturar o tradicional rock com elementos africanos ou outros ritmos ficou de fora? De jeito nenhum. White Rabbits parece alguma banda nova de David Byrne (ex-Talking Heads) em certos momentos. Ahh, mas aí alguém lembra que o Clap Your Hands Say Yeah já mostrou similaridades com a turma de Byrne. Um outro pessoal de NY, o Vampire Weekend, arrebenta com um disco bem simples e sem muito estardalhaço, mas que representa muito bem o que bandas como The Specials e Madness conseguiram fazer. Aquela influência da música negra que tanto contribuiu para a música se faz presente com os vampiros (mesmo em doses homeopáticas). Magic Bullets coloca a fase áurea do Gang Of Four à prova. E fazem bem feito. Os inesquecíveis riffs de Andy Gill se concretizam no minúsculo álbum do sexteto de San Francisco.

E o folk-rock também, de tanta coisa, nem teria lugar aqui com todas as suas associações. O que há de melhor hoje no cenário e nesse estilo (Papercuts, Ola Podrida, Jenny Lewis And The Watson Twins) vem daquela escola de Neil Young, Bob Dylan, Joni Mitchell, The Byrds, Paul Simon, Carole King e outros que legaram clássicos ao mundo (mesmo usando um singelo violão e suas vozes na condução de suas músicas). Os anos 60 também são preferidos e exaltados por muitas bandas, entre elas: The Clientele, The Sleepy Jackson e Hal. Todas bebendo insaciavelmente de grandes nomes como The Zombies, The Beatles e The Beach Boys.

Sempre alerto aos meus colegas que compartilham de música, e que, assim como eu, gostam de conhecer coisas novas para não contarem muito com o fator ‘novidade’ ou ‘originalidade’. Poucos grupos fazem isso atualmente. O que coloquei no meu texto é apenas 1 por cento do que poderia ser encaixado na temática da escrita. Entretanto, são ótimas bandas e que trazem todo um potencial para os anos vindouros. Que podem vir mais arrebatadoras, ou simplesmente podem cair no esquecimento ou acabar. Isso até não aparecer uma fazendo cópia da falecida, é claro.