
Chegam certos momentos na sua vida em que você sempre pensa em algo. Geralmente, que já poderia ter sido realizado. Fica ruminando dias a fio sobre o assunto. Vai dormir pensando nisso. Tentando julgar o certo ou o errado. Neste exato momento, fico me indagando o porque de não ter escrito nada sobre o grupo Odawas. Assim como não terem dado muito valor a banda, isso pelo pouco que observei em fóruns e comunidades sobre música. Até entendo que nesta velocidade atroz de informações diárias que pululam a nossa frente, tal fato seja plausível e temos mais um grupo que passa batido, e injustamente.
Só quero fazer duas ratificações. Até mesmo pelo pouco de pesquisa que fiz e que surpreendeu até esse que lhes escreve. Odawas não é do Canadá como muitos diziam, a banda é de Bloomington, cidade do estado de Indiana (EUA). O nome é uma referência a uma tribo indígena americana. Muito menos ‘Raven And The White Night’ é o début deles, isso porquê já existe um disco de 2005, ‘The Aether Eater’, que mantém um status de anonimato maior.
Mas, entendo o motivo de não ter escrito nada sobre Odawas antes. Não me vinham palavras para descrever a sonoridade. Ou, na minha singela opinião, tinha medo de pecar e não corresponder à altura do grupo. Mas, hoje, foi só começar a ouvir ‘The Maddering Of Raven’ e trazer sentimentos mais perceptíveis do fundo de meu âmago. Uma banda que se dá ao luxo de começar um disco com uma música, uma espécie de vinheta até, onde fica fácil associar com as melhores composições de um Angelo Badalamenti (que fez a trilha de ‘Cidade Dos Sonhos’ e ‘Twin Peaks’). Envolta em mistério, nos faz pensar exatamente numa trilha de algum suspense clássico. Vozes, órgãos suntuosos e clima onírico. Estejam prontos para um dos melhores discos do ano. Sua certeza pode até se concretizar na quinta audição, todavia será inevitável.
‘When God Was A Wicked Kid’ seria a melhor canção para traduzir o rótulo (apenas mais um muito usado ultimamente) de psych-folk. Que, para mim, seria como se transportássemos uma composição dos Byrds para os dias atuais, com mais recursos de estúdio e mais auxílio para as composições. ‘Getting to Another Plane’ nos traz à mente reminiscências de um Pink Floyd nos primeiros anos de carreira. Aquela música setentista que muitos julgam detestar, mas sequer nunca prestaram atenção no arranjo que ela desenvolve. Guitarras se sobressaindo, mas tudo na maior mansidão e serenidade, fazendo você prosseguir com a execução de seu sonho.
E você leitor, já escolheu uma de suas músicas preferidas desse ano? Aquela que mesmo se você não gostar do disco, você a coloca numa coletânea de sua preferência? O Odawas dá a resposta com ‘Alleluia’. Um belo arranjo de cordas e um assovio que poderiam virar quase um hino entre a geração dessa década. Mas enquanto haver preferência a macacos brancos e ratos modestos, a música fica lá, quietinha, semi-desconhecida. Sorte para quem ousar e descobrir ela. Não se arrependerás.
A banda acerta até quando faz música com delírios sonoros, sussurros de vozes e zumbidos ininteligíveis em ‘Love Is... (The Only Weapon With Which I Got To Fight)’. Além de fazer uma alusão ao memorável Martin Luther King. Observem a citação do nome da figura histórica sendo pronunciada na canção, isso tudo juntamente com a palavra ‘Bullshit’ formando camadas de discursos. Me lembrei como fosse uma mistura entre a esquizofrênica ‘Revolution 9’ dos Beatles com algo tirado de um disco do M83. Duas referências importantes. É claro que aqui tudo está menos viajante e com tempo mais curto.
‘Circus Song’ remete a canções estilo vaudeville, assim como a bandas do auge dos anos 60. Tudo com o toque mágico – ou, se preferir, de Midas – do grupo. Um trabalho com cordas que ficará te perturbando – no melhor dos sentidos - a semana inteira. As guitarras elétricas são um trunfo da banda. Por um bom tempo, não ouvia acordes de guitarras perpassarem por meus tímpanos como fossem tecidas de veludos. Ouça ‘Barnacles And Rustic Debris’ e concorde comigo.
Vou dormir mais tranqüilo e com a consciência tranqüila. Consegui traduzir cerca de 1/10 do que sinto sobre o álbum. Em contrapartida, o pouco foi algo vindo do coração e que somente é causado através de um produto artístico que memoriza, incendeia e atordoa. Obras que te fazem ficar refletindo no fim de noite, que te fazem ter esperança com o mundo da música. Agradeça e peça bis.
Banda: Odawas
Disco: ‘Raven And The White Night’
Ano: 2007
Gravadora: Jagjaguwar
Nota: 8,7
- Site para saber mais: www.myspace.com/odawastheband